Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha sob suspeita de tráfico de influência
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha - Greg Salibian - 31.mai.10/Folhapress
O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a Polícia Federal a abrir um inquérito para investigar suspeitas envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Lula (PT).
Como revelou a Folha, a solicitação da PF feita na última sexta-feira (24) foi distribuída na quarta-feira (29) a Mendonça. Os investigadores querem apurar os crimes de corrupção e tráfico de influência na autorização da comercialização de cannabis medicinal, em programas ligados ao Ministério da Saúde.
Lulinha tem atuação no ramo em parceria com a empresária Roberta Luchsinger, sua amiga, e o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.
O pedido de abertura de inquérito também cita contatos entre os alvos e servidores, inclusive do gabinete de Lula. A suspeita é de que o tráfico de influência tenha sido exercido junto ao Ministério da Saúde e ao gabinete da Presidência, de acordo com informações da PF.
Segundo os investigadores, uma das linhas é de que Lulinha teria atuado com Roberta no mercado de canabidiol a favor da empresa World Cannabis, ligada ao Careca do INSS.
A defesa de Lulinha afirmou que não irá comentar concretamente nem avaliar o grau de ilegalidade de um inquérito do qual não teve nenhum conhecimento. Porém afirmou ser necessário entender qual é a justificativa para a competência do STF no caso.
Acrescentou que uma nova investigação alheia à Operação Sem Desconto “demonstraria que falharam em encontrar o que injustificadamente buscavam, que é alguma ligação entre Fábio Luís e as fraudes do INSS”, e que “Fábio nunca teve relação nenhuma com esse escândalo”.
A defesa de Roberta afirmou não ter qualquer tipo de informação sobre a instauração de um novo inquérito policial e que os fatos relatados na investigação sobre repasses do INSS e sobre eventual malversação de verbas públicas já foram objeto de investigações em andamento.
Também afirmou que não haveria razão para a instauração de um novo inquérito policial e que “não faz o menor sentido reabrir uma investigação envolvendo o filho do presidente da República, que já havia sido finalizada, às vésperas do início de um processo eleitoral, a não ser para poder explorar isso politicamente”.
O Palácio do Planalto não comentou o caso até a publicação deste texto. A defesa de Antonio Carlos afirmou não ter conhecimento sobre o pedido e não se manifestou.
Nos últimos meses, os citados vêm negando irregularidades em sua atuação no ramo da cannabis medicinal.
Os advogados de Lulinha afirmaram anteriormente que o filho do presidente não participou de negociações, não investiu trabalho ou valores “e tampouco recebeu convite para associação, participação ou compra de cotas” no projeto comercial da World Cannabis.
Em março, a defesa de Lulinha admitiu que ele teve despesas pagas pelo Careca do INSS em uma viagem para Portugal em 2024.
Roberta Luchsinger disse que prestou uma consultoria para o Careca do INSS na área de canabidiol e que apresentou o lobista a Lulinha em um “contexto social”. Disse ainda que seu contrato não previa a comercialização de nenhuma substância.
O Careca do INSS está preso desde setembro de 2025. Em depoimento à CPI do INSS no ano passado, ele disse ser um empresário cuja prosperidade é “fruto de trabalho honesto e dedicado” e que não possui “patrimônio oriundo de roubo ou de qualquer prática ilícita”.
O documento enviado pela PF ao Supremo afirma que teriam sido identificados pagamentos do lobista para a RL Consultoria, de Roberta Luchsinger. A investigação tentará esclarecer se houve o pagamento para agentes públicos.
Os investigadores pedem à corte a autorização do compartilhamento de provas colhidas na Operação Sem Desconto, que mira uma quadrilha responsável por desvios no INSS e que tem Careca como um dos alvos.
O pedido de investigação foi remetido ao STF na última sexta, durante o recesso do Judiciário. O caso foi enviado à presidência do Supremo pela avaliação de que os fatos não seriam relacionados à Operação Sem Desconto, que envolve fraudes no INSS e que está sob relatoria de Mendonça.
O caso foi analisado por Alexandre de Moraes, que substituía Edson Fachin na presidência da corte em regime de plantão, que pediu um parecer da PGR (Procuradoria-Geral da República).
O órgão afirmou que as quebras de sigilo apresentadas pelos investigadores “revelaram a prática de crime” sem relação com a Operação Sem Desconto, opinando pelo sorteio de um novo relator para o caso. O escolhido foi André Mendonça.
No fim do ano passado, Lula chegou a afirmar que o filho deveria ser investigado se houvesse envolvimento dele em irregularidades.
“Ninguém ficará livre. Se tiver filho meu metido nisso será investigado. Se tiver o [ministro da Fazenda Fernando] Haddad, vai ser investigado, o [ministro-chefe da Casa Civil] Rui Costa com essa seriedade, vai ser investigado”, afirmou.
por Folhapress


