‘Propagação do HIV entre meninas na África é uma crise da desigualdade de gênero’, diz ONU

Stanley Ngara, também conhecido como Rei da Camisinha da África, distribui preservativos no Dia Mundial da AIDS em Nairóbi, no Quênia — Foto: REUTERS/Thomas Mukoya

Por Simon Rozé, RFI

Em 1° de dezembro é celebrado o Dia Mundial de Combate à Aids, uma epidemia que ainda mata, todos os anos, cerca de 650 mil pessoas em todo o mundo. Em entrevista à RFI, a diretora do Unaids, Winnie Byanyima, mostra como o agravamento das desigualdades sociais tem contribuído para aumentar as contaminações, principalmente na África, a região do mundo mais afetada pela doença. As desigualdades de gênero também elevam o impacto da infecção viral entre mulheres e meninas africanas.

Vários países no mundo têm registrado um aumento no número das contaminações pelo vírus HIV, prejudicando décadas de esforços empenhados para diminuir os casos da doença. O novo relatório anual do Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) alerta que o peso crescente das desigualdades está dificultando os avanços nas políticas de saúde.

De acordo com a ugandense Winnie Byanyima, a luta contra a Aids vem sendo afetada por vários fatores. “Já não estávamos muito bem há alguns anos, aí chegou a Covid-19 e suas consequências econômicas comprometeram muitas coisas”, afirma.

“Quando estávamos tentando nos recuperar, veio a guerra na Ucrânia, que levou à alta de preços dos combustíveis, dos alimentos, do custo de vida, deixando muitos países em dificuldades”, lamenta.

Em países de baixa e média renda na África, tornou-se complicado administrar as despesas de saúde, educação e proteção social. “Muitos países desfavorecidos também sofreram cortes nos programas de ajuda ao desenvolvimento, além da desvalorização de suas moedas em relação ao dólar”, destaca Winnie Byanyima. “Esse contexto econômico de agravamento das desigualdades está nos levando para uma direção errada”, adverte a diretora do Unaids.

Ao analisar os dados sobre a evolução da Aids nos últimos anos, fica claro, diz ela, que as desigualdades atuam como um motor de expansão da epidemia. Para manter o objetivo de erradicar a pandemia do HIV em 2030, são necessárias mudanças estruturais, assinala o relatório intitulado “Desigualdades perigosas”.

Slogan da campanha da ONU sobre o Dia Mundial de Combate à Aids de 2022 — Foto: UNAIDS/Divulgação
Slogan da campanha da ONU sobre o Dia Mundial de Combate à Aids de 2022 — Foto: UNAIDS/Divulgação

Educação é fundamental para conter a pandemia

Cerca de 54% de todas as pessoas infectadas pelo HIV vivem nas regiões leste e sul do continente africano. “Quando você olha em detalhes, você vê que na faixa etária de 15 a 24 anos, três em cada quatro novas infecções atingem meninas e mulheres jovens”, aponta a diretora do Unaids.

“Esta é uma crise de desigualdade de gênero. As mulheres e meninas são mais propensas a serem infectadas, o que está relacionado com a violência sexual e, na maioria das vezes, ao sexo não desejado”, destaca a representante da ONU.

As causas dessa realidade dramática incluem a falta de acesso seguro à escola, a dependência econômica dessas mulheres e meninas, o sexo pago por necessidade de sobrevivência, todas circunstâncias relacionadas com a pobreza, que elevam o risco de contaminação pelo HIV. Winnie Byanyima acredita que garantir o acesso de meninas e adolescentes à escola já diminuiria o risco de infecção pela metade. “Se lhes for dada educação sexual, o risco é reduzido ainda mais”, garante.

Apesar desse quadro sombrio, a ONU está satisfeita que 12 países tenham aderido ao novo programa “Mais Educação”, um plano ambicioso para desenvolver o ensino secundário e introduzir programas de educação sexual nas escolas. “Uma das coisas que estamos tentando fazer é combater a masculinidade tóxica nos meninos, para torná-los conscientes de como ser pessoas respeitosas, que não forçam uma garota a manter uma relação sexual sem o consentimento dela”, explica Winnie Byanyima à RFI. “É este tipo de ação que irá reduzir as desigualdades que impactam as meninas”, completa.

Entre a população masculina nas regiões mais afetadas da África, nos últimos dez anos houve uma redução nas novas infecções e mortes por Aids. Mas não entre os homossexuais. A explicação é que a homossexualidade ainda é considerada um crime em várias nações. Os gays são obrigados a esconder a doença para evitar a prisão e acabam sem acesso ao atendimento médico.

“Eles enfrentam o olhar da sociedade, que não os deixa assumir sua sexualidade e obter o que precisam”, relata a diretora da Unaids. A descriminalização da homossexualidade precisa avançar, como aconteceu nos últimos anos no Gabão, em Botsuana, Angola e em alguns países do Caribe, como Antígua e Barbuda, São Cristóvão e Neves.

Outra desigualdade que merece particular atenção da ONU é a de acesso ao tratamento com antiretrovirais. Atualmente, 75% dos adultos soropositivos recebem tratamento para evitar o desenvolvimento ou os efeitos da Aids. Mas, no caso das crianças soropositivas, apenas 52% delas estão em tratamento.

Abraham Nnam conversa com jovens sobre AIDS em um centro de saúde no subúrbio de Kobi, na Nigéria, em 30 de novembro de 2022 — Foto: REUTERS/Afolabi Sotunde
Abraham Nnam conversa com jovens sobre AIDS em um centro de saúde no subúrbio de Kobi, na Nigéria, em 30 de novembro de 2022 — Foto: REUTERS/Afolabi Sotunde

Deixe um comentário...