Alvo de operação sobre PCC viabilizou contrato milionário de ONG ligada a Dark Horse

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por ICL Notícias

Alvo de operação sobre PCC viabilizou contrato milionário de ONG ligada a Dark Horse
Milton Leite

Milton Leite, alvo da operação deflagrada na quinta-feira (17) contra a infiltração do PCC no transporte público de São Paulo, ajudou a viabilizar em 2018 um contrato de R$ 2,5 milhões entre a Prefeitura e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade comandada por Karina Gama, produtora do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Leite, então vereador, destinou R$ 500 mil em emenda para o projeto. Documentos da Prefeitura mostram que os recursos dele e de outros três parlamentares foram a origem do dinheiro destinado à parceria e permitiram que o município contratasse diretamente o ICB, sem realizar chamamento público.

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O dinheiro bancou o Encontro Literário IDE, evento de literatura cristã realizado no Anhembi, em São Paulo, em setembro de 2018. O projeto previa uma programação voltada à promoção da leitura e da literatura, com palestras, debates, apresentações e atividades culturais, além da estrutura necessária para a realização do encontro. Na prática, o ICB recebeu os R$ 2,5 milhões para organizar e executar o evento.

A existência da emenda de Milton Leite para o instituto foi revelada pelo Intercept em dezembro de 2025. O cruzamento feito agora pelo ICL Notícias ganha relevância após Leite se tornar alvo da Operação Vectura Corrupta e mostra o papel concreto das emendas na contratação da entidade comandada por Karina.

Além dos R$ 500 mil indicados por Leite, o evento recebeu R$ 1,33 milhão de Souza Santos, R$ 400 mil de Atílio Francisco e R$ 270 mil de Noemi Nonato. Somadas, as quatro emendas chegaram aos R$ 2,5 milhões destinados ao projeto.

Karina já estava à frente do ICB e foi quem assinou o contrato. Anos depois, ela fundaria a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse. O instituto também passou a receber contratos e emendas de valores muito superiores, entre eles o projeto de Wi-Fi gratuito da Prefeitura de São Paulo, atualmente investigado pela Polícia Civil e incorporado às apurações relacionadas ao filme.

O episódio não é o único ponto em que suspeitas envolvendo o PCC aparecem no entorno dos negócios hoje investigados de Karina. Anos depois, o ICB contratou por R$ 12 milhões a Favela Conectada, então pertencente a Alex Leandro Bispo dos Santos, apontado por órgãos de inteligência como possível integrante da facção.

Alex foi citado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao tratar da possível conexão entre a investigação sobre Dark Horse e o inquérito paulista envolvendo o contrato do WiFi Livre SP. Dino afirmou haver indícios de “um só sistema delitivo” e mencionou “atos interligados até com a facção criminosa PCC”.

Documentos analisados anteriormente pelo ICL Notícias mostraram que os repasses do ICB à Favela Conectada chegaram a R$ 7,68 milhões. Em um dos episódios, a empresa recebeu R$ 2 milhões em um ciclo no qual seu próprio relatório registrava zero novos pontos de Wi-Fi instalados.

Não há, até o momento, evidência de relação entre Milton Leite e Alex Bispo ou de que os dois episódios envolvendo suspeitas sobre o PCC façam parte do mesmo esquema. O que os documentos mostram são duas conexões distintas envolvendo personagens ou empresas que passaram pela órbita do ICB de Karina Gama.

Karina Ferreira da Gama, dona da empresa Go UP Entertainment, responsável pelo filme ‘Dark Horse’ - sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Milton Leite, alvo da operação contra a infiltração do PCC no transporte público de SP, ajudou a viabilizar um contrato de R$ 2,5 milhões entre a Prefeitura e o ICB, entidade comandada por Karina Gama, produtora do filme Dark Horse (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

Emendas permitiram contratação direta

O ponto central dos documentos de 2018 é que as emendas não aparecem apenas como uma das fontes de recursos do evento.

A Prefeitura registrou que a parceria decorria de emendas parlamentares destinadas especificamente ao Encontro Literário IDE. Essa circunstância foi utilizada como fundamento para a celebração da parceria sem chamamento público.

Em termos práticos, não houve uma disputa aberta para escolher qual organização realizaria o projeto. Como os recursos das emendas estavam vinculados àquela parceria, a Prefeitura pôde contratar diretamente o ICB para executar o evento.

Assim, os R$ 500 mil indicados por Milton Leite integraram o conjunto de recursos que permitiu ao instituto fechar a parceria milionária diretamente com a administração municipal.

O contrato está entre os primeiros firmados pelo ICB com a Prefeitura de São Paulo. Levantamentos sobre a trajetória do instituto apontam que a entidade começou a assinar contratos municipais justamente em 2018.

Não há, nos documentos analisados, indício de que a emenda de Leite ou o evento realizado em 2018 tenham relação com o PCC ou com as suspeitas investigadas atualmente.

Milton Leite virou alvo de operação sobre PCC

Ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite é um dos alvos de prisão temporária da Operação Vectura Corrupta, deflagrada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil para investigar a suposta infiltração do PCC no sistema de transporte coletivo paulistano.

Na decisão que autorizou a operação, o desembargador Sérgio Ribas registra que Leite é apontado pela investigação como “responsável direto pela operação” de algumas empresas que seriam controladas pelo PCC. O documento menciona ainda declarações de policiais militares segundo as quais ele seria o proprietário de fato da Transwolff.

Leite nega as acusações e qualquer ligação com a facção. Nesta quinta, afirmou que estava viajando, que não se considerava foragido e que se apresentaria às autoridades em até 24 horas. Disse também que pretende provar sua inocência.

A própria decisão ressalta que as medidas determinadas são cautelares e não representam antecipação de julgamento sobre a responsabilidade penal dos investigados.

A investigação sustenta que 12 das 22 empresas que operam o transporte coletivo de São Paulo estariam, em tese, sob controle do PCC. O processo descreve suspeitas de utilização de empresas, contratos públicos, pessoas interpostas e articulações políticas em benefício da organização criminosa.

ICB passou a movimentar contratos muito maiores

Depois do projeto financiado pelas emendas de 2018, o ICB ampliou significativamente sua atuação com recursos públicos.

A entidade comandada por Karina está hoje no centro de outra investigação. A Polícia Civil apura suspeitas envolvendo o contrato do programa de Wi-Fi gratuito de São Paulo, cujo valor chegou a R$ 157 milhões. O caso foi enviado a Flávio Dino por sua possível conexão com as investigações envolvendo Dark Horse.

O ICB também recebeu emendas do deputado federal Mario Frias (PL-SP), um dos idealizadores do filme, e integra a rede de entidades e empresas comandadas por Karina que entrou no radar das investigações sobre o financiamento da produção.

A investigação sobre Dark Horse não atribui a Milton Leite participação no financiamento do filme. Da mesma forma, até o momento não há elemento conhecido que relacione a emenda destinada por ele em 2018 às suspeitas investigadas atualmente.

O elo documentado é anterior: oito anos antes de ser alcançado pela operação sobre a infiltração do PCC no transporte, Leite destinou R$ 500 mil ao projeto que ajudou a colocar o ICB de Karina Gama entre as organizações contratadas pela Prefeitura de São Paulo.

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