Bolsa Família quebra ciclo da pobreza entre gerações das famílias; 60% deixaram o programa até 2025, revela estudo

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por Revista Fórum

apresentação do estudo na íntegra.

Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), realizado em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), revela que 60,68% das pessoas que recebiam o Bolsa Família em 2014 deixaram o programa até 2025. Entre os adolescentes que integravam famílias beneficiárias, o percentual foi ainda maior: 68,8% entre aqueles que tinham de 11 a 14 anos e 71,25% entre os que tinham de 15 a 17 anos.

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Os dados integram a pesquisa Filhos do Bolsa Família: uma análise da última década do programa, apresentada em dezembro de 2025, e apontam para uma trajetória de mobilidade social entre gerações de famílias que viviam em situação de pobreza – leia a apresentação do estudo na íntegra.

À Fórum, Carla Beni, economista, conselheira do Conselho Regional de Economia (Corecon), revelou ainda outros dados que mostram o impacto do programa social sobre a sociedade e o país, como o impacto multiplicador sobre o Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o Banco Mundial, cada dólar transferido pelo Bolsa Família teria gerado US$ 2,16 em atividade econômica nos municípios beneficiados.

“É importante observar que nenhuma política pública de porte como Bolsa Família pode ser feita com menos de 20 anos, porque uma geração são 20 anos. Então, nos outros países – estou falando da Inglaterra, França e da Alemanha, ou qualquer outro -, você vai trabalhar com isso pelo menos por duas gerações. Então, o conceito de romper o ciclo da pobreza intergeracional, são mais de 20 anos”, diz a especialista.

O levantamento se soma a dados sobre a inserção de beneficiários no mercado de trabalho formal e aos estudos que identificam efeitos da transferência de renda sobre a economia local.

O cenário contrasta com a narrativa de que o programa estimularia a inatividade e mostra a importância de analisar a relação entre proteção social, educação, emprego e superação da pobreza.

Segundo Carla Beni, o reajuste de 15% no benefício, anunciado nesta quinta-feira (17) pelo governo Lula e que gerou revolta na Faria Lima e nas campanhas adversárias, foi apenas uma correção da inflação acumulada no valor pago às famílias.

“Esse aumento que foi dado agora foi apenas a correção do processo inflacionário de 2023 até 2026 para que o beneficiário do Bolsa Família possa fazer uma manutenção do poder de compra. Lembrando que com 3 anos de atraso você nem poderia considerar essa manutenção de poder de compra”, explica a economista.

Como Lula implantou o Bolsa Família e qual era o impacto esperado

O Bolsa Família foi criado em outubro de 2003, durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, a partir da unificação de programas federais de transferência de renda que já existiam, como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio-Gás e Cartão Alimentação. A medida foi formalizada pela Medida Provisória nº 132, de 20 de outubro de 2003, que estabeleceu um programa de transferência de renda com condicionalidades e integração dos cadastros governamentais.

A proposta não era apenas entregar dinheiro às famílias em situação de pobreza. O desenho do programa buscava associar a transferência de renda ao acesso à educação e à saúde, criando condições para que crianças e adolescentes permanecessem na escola e tivessem acompanhamento de saúde.

No discurso de lançamento, Lula apresentou a unificação como uma forma de ampliar a proteção social e garantir que as famílias pudessem caminhar para uma vida digna e independente. A meta anunciada naquele momento era alcançar mais de 11 milhões de famílias até o final do governo.

A lógica do programa combinava, portanto, alívio imediato da pobreza e investimento nas condições de desenvolvimento das novas gerações. A renda transferida ajudaria a garantir alimentação e consumo básico, enquanto as condicionalidades procuravam fortalecer o acesso a serviços públicos essenciais.

Duas décadas depois, o estudo da FGV permite observar o que aconteceu com parte das pessoas que estavam no programa em 2014. A análise não se limita ao número de famílias atendidas ou ao valor pago mensalmente: acompanha a trajetória de beneficiários e identifica diferenças de saída conforme idade, escolaridade e inserção no mercado formal.

Adolescentes apresentam as maiores taxas de saída

O resultado mais expressivo aparece entre os jovens que eram adolescentes em 2014. Dos beneficiários com idade entre 15 e 17 anos naquele ano, 71,25% haviam deixado o Bolsa Família até 2025. Na faixa de 11 a 14 anos, o percentual foi de 68,8%.

A taxa média, considerando os diferentes grupos etários, ficou em 60,68%. O estudo também aponta que a saída é favorecida pela inserção no mercado de trabalho formal: entre os beneficiários com carteira assinada, a taxa de saída chegou a 79,4%.

Os números ajudam a compreender a dimensão intergeracional do programa. Uma criança que cresce em uma família beneficiária pode, ao longo dos anos, alcançar condições de renda diferentes das vividas por seus pais. A escolaridade e o acesso ao emprego formal aparecem como elementos relevantes nesse processo.

A pesquisa identificou ainda que 52,67% dos jovens de 15 a 17 anos que recebiam o benefício em 2014 também haviam deixado o Cadastro Único até 2025. Entre eles, 28,4% tinham emprego com carteira assinada naquele ano.

O impacto no PIB: dinheiro que circula e movimenta a economia

O Bolsa Família também produz efeitos que ultrapassam as famílias que recebem diretamente os recursos. Um estudo apresentado pela FGV em 2023, com base em pesquisa do Banco Mundial, identificou efeitos da transferência de renda sobre a economia dos municípios.

Entre as conclusões apresentadas, está a estimativa de um multiplicador de 2,16 no PIB local para cada dólar investido no programa. O resultado significa que, segundo a metodologia do estudo, o estímulo econômico associado ao Bolsa Família teria sido superior ao valor inicialmente transferido.

“A cada um dólar que é gasto no programa, esse dólar retorna e ainda produz mais 1.16, ou seja, o multiplicador do Bolsa Família é 2.16 e esse dólar volta no comércio, nos serviços, no varejo e inclusive em créditos do sistema financeiro”, explica Carla Beni.

O estudo mostra que as famílias utilizam o benefício principalmente para despesas básicas, como alimentação, transporte e outros serviços. Parte desses recursos retorna ao comércio local, sustentando a atividade de pequenos estabelecimentos e trabalhadores.

Os dados compilados pela professora da FGV, usados em sala de aula, também destacam que:

  • 54% dos gastos observados dos beneficiários ocorreram em serviços locais;
  • Aproximadamente dois terços dos gastos foram realizados em lojas formais;
  • O estudo identificou efeitos positivos sobre depósitos bancários e crédito.

Esses dados ajudam a compreender o programa como uma política que combina transferência de renda e circulação econômica. O dinheiro não fica restrito à relação entre governo e beneficiário: ele entra no mercado consumidor e pode estimular atividades em diferentes setores da economia municipal.

A movimentação econômica gerada pelo consumo pode alcançar trabalhadores e estabelecimentos que não fazem parte do programa. Isso ocorre porque o dinheiro recebido por uma família pode se transformar em receita para um comerciante, pagamento a um prestador de serviço ou renda para outro trabalhador.

A pesquisa, portanto, contribui para ampliar o debate sobre o custo e o retorno das políticas de transferência de renda, sem reduzir sua avaliação ao valor desembolsado pelo governo.

A narrativa da “preguiça” e os dados do emprego

A associação entre Bolsa Família e suposta falta de disposição para o trabalho é frequentemente utilizada no debate público. Após o anúncio do reajuste do valor, críticos do programa foram às redes retomar a velha narrativa de que o beneficiário seria “preguiçoso” e se apoia em menos de R$ 700 mensais para não buscar trabalho.

Os dados recentes sobre emprego formal, porém, mostram que pessoas inscritas no Cadastro Único e beneficiárias do programa representam uma parcela expressiva das novas contratações no país.

egundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento Social, 80% do saldo de empregos formais gerados no primeiro semestre de 2025 foram ocupados por pessoas inscritas no Cadastro Único. Entre os beneficiários diretos do Bolsa Família, a participação chegou a 58,2%, correspondente a 711.987 vagas.

O Cadastro Único reúne famílias de baixa renda que podem ou não receber o Bolsa Família. Por isso, os números precisam ser apresentados com essa distinção: o percentual de 80% não corresponde exclusivamente aos beneficiários do programa.

A Regra de Proteção e a transição para o emprego

Um dos mecanismos utilizados pelo Bolsa Família para facilitar essa transição é a Regra de Proteção. Ela permite que determinadas famílias que ultrapassam o limite de renda para permanência no programa continuem recebendo parte do benefício durante um período definido pelas normas vigentes.

A lógica é evitar que a obtenção de um emprego formal ou o aumento da renda provoque uma perda imediata de toda a transferência. Dessa forma, a família pode atravessar um período de adaptação antes de depender exclusivamente da renda do trabalho.

Em 2025, o governo federal atualizou as regras de transição por meio da Portaria MDS nº 1.084. A nova regulamentação estabeleceu condições específicas para a permanência no programa, incluindo limite de renda e duração do recebimento parcial. Essas regras devem ser diferenciadas das condições anteriores, pois sofreram alterações ao longo do tempo.

A existência da regra não garante, por si só, que todas as famílias consigam alcançar estabilidade financeira. Seu objetivo é reduzir o risco de uma perda abrupta da renda durante a transição, especialmente para trabalhadores com vínculos ainda sujeitos à instabilidade.

Os dados do emprego ajudam a explicar a saída do programa

O estudo da FGV identifica uma associação entre a inserção no trabalho formal e a saída do Bolsa Família. A taxa de saída de 79,4% entre beneficiários com carteira assinada é superior à média geral de 60,68%.

Essa diferença sugere que o emprego formal constitui um dos caminhos relacionados à mudança da situação de renda. Mas é necessário evitar uma interpretação simplista: a pesquisa não permite atribuir toda a saída exclusivamente à contratação formal, uma vez que outros fatores também influenciam a trajetória dos beneficiários.

Entre eles estão a escolaridade, a idade, as condições econômicas da família e as características do mercado de trabalho em cada região.

O resultado reforça a importância de políticas que combinem transferência de renda com educação, qualificação profissional, serviços públicos e oportunidades de emprego. A superação da pobreza não depende apenas da entrada em um posto de trabalho, mas também da capacidade de manter uma renda suficiente para garantir condições dignas de vida.

Os resultados da FGV colocam em perspectiva a função do Bolsa Família ao longo do tempo. A política não deve ser avaliada somente pela quantidade de pessoas atendidas em determinado mês, mas também pelas oportunidades que consegue ampliar para as gerações seguintes.

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(Infografia criada por IA)

Como Lula implantou o Bolsa Família e qual era o impacto esperado

O Bolsa Família foi criado em outubro de 2003, durante o primeiro mandato de Lula na Presidência. A medida foi formalizada pela Medida Provisória nº 132, de 20 de outubro de 2003, que estabeleceu um programa de transferência de renda com condicionalidades e integração dos cadastros governamentais.

A proposta não era apenas entregar dinheiro às famílias em situação de pobreza. O desenho do programa buscava associar a transferência de renda ao acesso à educação e à saúde, criando condições para que crianças e adolescentes permanecessem na escola e tivessem acompanhamento de saúde.

No discurso de lançamento, Lula apresentou o programa como uma forma de ampliar a proteção social e garantir que as famílias pudessem caminhar para uma vida digna e independente. A meta anunciada naquele momento era alcançar mais de 11 milhões de famílias até o final do governo.

A lógica do programa combinava, portanto, alívio imediato da pobreza e investimento nas condições de desenvolvimento das novas gerações. A renda transferida ajudaria a garantir alimentação e consumo básico, enquanto as condicionalidades procuravam fortalecer o acesso a serviços públicos essenciais.

Duas décadas depois, o estudo da FGV permite observar o que aconteceu com parte das pessoas que estavam no programa em 2014. A análise não se limita ao número de famílias atendidas ou ao valor pago mensalmente: acompanha a trajetória de beneficiários e identifica diferenças de saída conforme idade, escolaridade e inserção no mercado formal.

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