De ameaça a oportunidade: como a Nestlé quer lucrar com a febre de Ozempic e Mounjaro

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Por Reuters

Logo da Nestlé na sede da empresa em Vevey, na Suíça, em 25 de novembro de 2024. — Foto: REUTERS/Denis Balibouse
Logo da Nestlé na sede da empresa em Vevey, na Suíça, em 25 de novembro de 2024. — Foto: REUTERS/Denis Balibouse

A Nestlé busca transformar a crescente popularidade dos medicamentos para perda de peso à base de GLP-1 de uma ameaça em uma oportunidade de negócio.

Para isso, a empresa usa inteligência artificial e ciência nutricional para desenvolver produtos voltados a milhões de consumidores que usam medicamentos como Ozempic e Wegovy.

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A rápida adoção dos medicamentos fabricados pela Novo Nordisk e pela Eli Lilly aumentou a preocupação dos investidores de que os remédios, que reduzem o apetite, possam diminuir de forma permanente a demanda por alimentos industrializados, lanches e bebidas.

A Nestlé, no entanto, acredita que esses medicamentos também estão criando um novo mercado para produtos voltados a alguns dos efeitos da perda rápida de peso.

O diretor de tecnologia da empresa, Stefan Palzer, disse à Reuters que a Nestlé usa inteligência artificial e outras tecnologias para analisar pesquisas clínicas, identificar combinações de nutrientes e desenvolver produtos específicos para pessoas que utilizam medicamentos à base de GLP-1.

“Estamos bem posicionados com o portfólio. É uma grande oportunidade para nossa empresa”, disse ele.

Materiais de apresentação mostrados à Reuters detalham efeitos associados à perda rápida de peso, como a redução da massa muscular e da gordura facial, frequentemente chamada de “rosto de Ozempic”.

Os documentos também apontam áreas em que a Nestlé acredita que seus produtos podem ajudar.

O mercado de medicamentos à base de GLP-1 é dominado por Mounjaro e Zepbound, da Eli Lilly, e por Wegovy e Ozempic, da Novo Nordisk.

De acordo com o Boston Consulting Group, cerca de 16 milhões de americanos usam medicamentos dessa classe, número que deve crescer consideravelmente até o fim da década.

A estratégia da Nestlé tem sido desenvolver produtos adaptados às necessidades de quem utiliza esses remédios. Para isso, a empresa usa inteligência artificial para acelerar pesquisas, desenvolver alimentos e bebidas e analisar o comportamento dos consumidores.

Combate aos efeitos da perda de peso

Palzer afirmou que os cientistas da Nestlé estudam as consequências da perda rápida de peso e desenvolvem produtos para ajudar os consumidores a lidar com esses efeitos.

A empresa usa ferramentas de inteligência artificial para processar grandes volumes de pesquisas clínicas e identificar combinações de nutrientes que possam contribuir para a manutenção da massa muscular, a hidratação e uma alimentação adequada.

A Nestlé também começou a adicionar proteína de colágeno aos produtos da marca Vital Proteins, com o objetivo de atender a preocupações com a saúde da pele, dos cabelos e das unhas durante a perda rápida de peso.

“Uma grande parte da perda de peso se deve à perda de massa muscular magra”, disse Palzer.

“Descobrimos uma combinação de dois micronutrientes que industrializamos e que estimulam o crescimento do tecido muscular. Por um lado, fornecemos proteína; por outro, estimulamos o tecido muscular a se regenerar mais rapidamente.”

Palzer afirmou ainda que a Nestlé patenteou combinações de ingredientes desenvolvidas para reduzir o apetite de consumidores que apresentam aumento da fome após interromper o tratamento com medicamentos à base de GLP-1.

A empresa já lançou produtos específicos para esse público.

A divisão americana da Nestlé criou o Boost Advanced Nutrition Shake, que oferece 35 gramas de proteína e promete auxiliar na manutenção da massa muscular durante o emagrecimento. Na Ásia e na Austrália, a empresa lançou uma versão com maior teor de proteína de sua bebida maltada Milo, chamada Milo PRO High Protein.

Fabricantes de sorvetes também enfrentam desafios semelhantes e têm apostado em produtos com mais proteína, porções menores e listas de ingredientes mais simples.

IA ajuda a criar e testar receitas

A inteligência artificial tem um papel cada vez mais importante nesse processo.

A Nestlé desenvolveu sistemas internos para analisar pesquisas científicas, simular o comportamento dos consumidores, identificar tendências e ajudar no desenvolvimento de produtos a partir de um banco de dados de aproximadamente 120 mil receitas.

Entre essas ferramentas está uma plataforma interna chamada Food Genie. Segundo Palzer, ela ajuda cientistas e desenvolvedores a prever o desempenho das receitas e identificar oportunidades de reformulação dos produtos.

“Imagine uma pequena empresa com apenas mil receitas. É muito difícil modelar e prever receitas usando IA”, disse ele. “A IA precisa de dados”, completa.

A Nestlé também testa simulações baseadas em inteligência artificial para prever como os consumidores reagiriam a novos produtos e a alegações relacionadas à saúde antes que eles cheguem às prateleiras.

A empresa também usa a tecnologia para monitorar as redes sociais e identificar novas tendências de consumo.

“Você percebe a repercussão em torno de certos tópicos e então pode concluir se essa é uma tendência duradoura ou não”, disse Palzer.

“A inteligência artificial estará cada vez mais presente nesse campo.”

Nem todos estão convencidos

Alguns especialistas em nutrição questionam se produtos desenvolvidos especificamente para usuários de medicamentos para perda de peso oferecem vantagens significativas em relação aos alimentos convencionais.

“É muito triste que estejamos sempre recorrendo a novos produtos que são mais caros do que alimentos frescos e integrais que também contêm as mesmas proteínas e nutrientes”, disse Amanda Avery, professora associada de nutrição e dietética da Universidade de Nottingham, no centro da Inglaterra.

Ela destacou que carnes, peixes, ovos, laticínios, feijões, nozes e outras leguminosas continuam sendo fontes relativamente acessíveis de proteínas e nutrientes.

Ainda assim, Avery afirmou que produtos voltados especificamente para usuários de medicamentos à base de GLP-1 provavelmente encontrarão compradores.

“Infelizmente, somos bastante influenciados pelo marketing”, disse ela. “A Nestlé certamente fez sua pesquisa.”

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