Janja escondeu elogio a Marisa para fazer surpresa a Lula e ‘virar página’ com petistas
por coluna Mônica Bergamo, Folhapress

A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, dividiu apenas com um grupo próximo e muito restrito a decisão de elogiar a ex-primeira-dama Marisa Letícia no lançamento da campanha de Lula em São Bernardo do Campo, no domingo (16).
Ela não antecipou o conteúdo de sua fala aos organizadores do evento e nem mesmo ao próprio marido. A ideia era surpreendê-lo, de acordo com interlocutores que convivem com o casal.
A decisão, de acordo com lideranças da campanha de Lula, não passou pela área de marketing da campanha. De acordo com uma delas, “todo mundo sabe que a Janja só faz o que quer” e não segue conselho de quase ninguém.
A fala causou perplexidade já que Janja até então evitava falar da ex-primeira-dama, que é a mãe de quatro filhos do presidente e foi casada com ele por 43 anos.
De acordo com inúmeros relatos, a atual primeira-dama sempre reagiu negativamente a qualquer referência feita a Marisa na frente dela.
A rejeição era tanta que a equipe de comunicação de Lula evitava usar imagens da ex-primeira-dama, que morreu em 2017, aos 66 anos, vítima de um aneurisma.
Amigos antigos que conviveram com Marisa Letícia acabaram se afastando da convivência íntima com Lula, e os filhos do presidente se relacionam com ele à distância: a família não se reúne mais com frequência sequer em datas festivas.
Em entrevista concedida neste ano ao programa Frente a Frente, feito em parceria do UOL e da Folha, Janja chegou a declarar que o Brasil nunca havia tido uma primeira-dama que “trabalhasse efetivamente”, fala considerada ofensiva às antecessoras, e também a Marisa.
É por isso que o gesto da atual primeira-dama está sendo considerado excepcional, “uma guinada e um gesto para o marido dela, para a família e, ao fim e ao cabo, uma virada de página dela com todos nós, do PT”, diz um líder do partido.
Para chegar a esse momento, a primeira-dama teria passado por um processo longo de superação de inseguranças e de conscientização de que seu silêncio não apagaria a memória de Marisa Letícia, que sempre foi respeitada por lideranças do PT e querida pela militância do partido.
Pelo contrário: acabava gerando antipatia.
Ao discursar no primeiro ato da campanha de Lula, Janja afirmou que “gostaria de lembrar especialmente de uma Silva, presidente: Dona Marisa”.
Disse que, como “outras tantas mulheres”, a ex-primeira-dama não estava no chão de fábrica em 1979, mas desempenhou um papel essencial nos bastidores, servindo de “alicerce” para que seus maridos pudessem lutar por melhores salários e dignidade sob a liderança de Lula.
“Essas mulheres lideradas por dona Marisa foram uma força importante e são pouco lembradas. Sem a presença delas, presidente, talvez essa história toda tivesse sido diferente”, disse Janja.
“A estrela da nossa bandeira, do nosso partido, traz à nossa memória o cuidado e o carinho de dona Marisa; foi ela quem bordou a primeira bandeira do PT e é a ela que eu dedico toda a minha admiração”, finalizou.


