Dois ex-ministros de Lula são autorizados a receber salário do governo enquanto fazem campanha

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Os ex-ministros Márcio França (PSB), do Empreendedorismo, e Rui Costa (PT), da Casa Civil, tiveram autorização para quarentena remunerada, concedida para que autoridades não exerçam atividades na iniciativa privada após deixar o alto escalão. Mesmo em campanha eleitoral, França e Costa terão direito a receber durante um período de seis meses um salário equivalente ao do cargo que ocuparam.

Homem de cabelos grisalhos fala ao microfone em palco, com oito homens sentados atrás dele. Ao fundo, painel azul exibe texto 'Viva Urbanização e Dignidade'. Público registra com celulares na frente.
Lula, com Rui Costa e Márcio França, em evento em Osasco, em 2025 – Ronny Santos – 25.jul.25/Folhapress

A quarentena tem como objetivo evitar que ex-ministros, secretários e outros funcionários que deixaram cargos de chefia no governo usem o acesso que tiveram a informações privilegiadas para atuar no mercado privado. A restrição vale para que não trabalhem em empresas da mesma área em que atuaram enquanto ministros.

No caso de França e Costa, eles deixaram os cargos para concorrer nas eleições deste ano. O ex-ministro de Empreendedorismo será vice na chapa de Fernando Haddad (PT) para o Governo de São Paulo, enquanto o da Casa Civil vai se candidatar ao Senado pela Bahia. Segundo o Ministério da Gestão e da Inovação, eles ainda não receberam nenhum pagamento de quarentena.

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Além desses dois, os ex-ministros Márcio Macedo (da Secretaria-Geral da Presidência), Cida Gonçalves (Mulheres), Ana Moser (Esportes) e Nísia Trindade (Saúde) receberam a quarentena remunerada na época em que saíram. Ao todo, ganharam salários que somam R$ 642 mil.

A informação foi publicada primeiramente pelo jornal O Globo.

Para ter direito à quarentena, os ministros precisam informar à Comissão de Ética que pretendem retornar ao mercado privado em áreas com potencial conflito de interesses. A partir daí, a comissão pode aprovar ou não a quarentena remunerada. Uma vez aprovada, a autoridade precisa voltar ao ministério para informar que o pagamento já pode ser feito

No caso de Márcio França, ele diz ter sido convidado pelo Simpi (Sindicato da Micro e Pequena Indústria) para atuar como consultor. Na justificativa enviada à comissão, França afirmou que a quarentena “não apenas é juridicamente adequada, como também eticamente necessária.”

“Tive acesso a informações estratégicas e sensíveis, relacionadas a políticas públicas, programas governamentais e diretrizes econômicas. Recebi um convite do Sindicato da Micro e Pequena Indústria. Trata-se de uma atividade legítima, coerente com a minha trajetória pública. No entanto, reconheço que há, sim, uma situação potencial de conflito de interesses”, disse.

Em maio, quando já tinha deixado o cargo de ministro, França recebeu R$ 46,3 mil em verbas indenizatórias, de acordo com o Portal da Transparência. Segundo o Ministério da Gestão e da Inovação, o valor se refere a uma compensação para o ministro retornar ao estado de origem.

O salário bruto do ministro era de R$ 46,4 mil. O pagamento da quarentena começará a ser efetuado em agosto, referente à folha de julho.

Procurada por mensagem e telefone às 19h de quarta-feira (22), a assessoria de Márcio França não respondeu à reportagem.

Já Rui Costa solicitou a quarentena à comissão porque pretendia retomar o vínculo CLT com a Braskem, empresa na qual era projetista. No formulário, ele disse considerar que poderia ter tido acesso a informações privilegiadas enquanto chefe da Casa Civil. No ministério, recebia um salário bruto de R$ 46,4 mil, equivalente ao teto constitucional.

Os que saíram antes desse período de descompatibilização já receberam a quarentena. O salário vem em forma de verba indenizatória, livre de Imposto de Renda e descontos previdenciários, por ser considerado como uma compensação para o ministro. As verbas são pagas poucos meses após deixarem o cargo.

A assessoria de Rui Costa diz que o ministro não solicitou a implementação da remuneração compensatória à Casa Civil.

Cida Gonçalves recebeu, entre julho e novembro do ano passado, R$ 278 mil de quarentena. À Comissão de Ética ela afirmou desejar voltar a prestar serviços para a Xaraés, consultoria de políticas de gênero da qual é dona. Na justificativa, disse ter tido acesso a informações privilegiadas sobre o tema por chefiar a pasta das Mulheres.

Procurada, Cida afirmou que, durante o processo, não se envolveu em nenhuma atividade da empresa e as palestras proferidas foram gratuitas e aprovadas pelo Conselho de Ética.

Já Nísia Trindade pediu quarentena por ter sido convidada para atuar como conselheira científica da Farmacêutica EMS e consultora externa da Biomm Farmacêutica. Entre maio e setembro de 2025, ela recebeu R$ 278 mil.

Assim como França e Rui Costa, Nísia vai disputar a eleição neste ano e é pré-candidata a deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro. A ex-ministra se filiou ao partido em março.

Em nota, Nísia afirma que as verbas da quarentena seguem a decisão da Comissão de Ética Pública de remuneração compensatória, quando foi impedida de exercer atividades no setor privado.

No caso de Márcio Macedo, o pedido de quarentena não teve uma empresa ou convite específicos na justificativa. O ex-ministro diz apenas que gostaria de iniciar uma consultoria para prestar serviços de relações institucionais e governamentais.

No entanto, Macedo saiu da pasta para se dedicar à sua candidatura a deputado federal pelo PT-SE, como afirmou em publicação nas redes sociais. Ele ganhou R$ 139 mil entre janeiro e fevereiro deste ano.

O processo de Ana Moser na comissão é o único que não está público, embora haja o reconhecimento de conflito de interesses, segundo consta no órgão. Ela recebeu R$ 224 mil em 2023. Procurada por mensagem, ela não se manifestou.

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