EUA barram árbitro e torcedores, interrogam jogadores e restringem acesso às vésperas da Copa

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Seleção iraniana em amistoso contra Gâmbia - Umit Bektas - 29.mai.26/Reuters

Os Estados Unidos têm endurecido fiscalizações e restringido acesso mesmo de pessoas envolvidas com a Copa do Mundo às vésperas do início do torneio. O maior rigor reforça as políticas anti-imigratórias do governo Donald Trump e tem gerado críticas de torcedores.

A Fifa (Federação Internacional de Futebol), organizadora do evento, evita se pronunciar sobre o tema e afirma não se envolver nos processos de imigração dos países-sede. O Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE, na sigla em inglês) e a pasta gestora do órgão, o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), alegam que as decisões são tomadas caso a caso.

Até agora, os principais atingidos são pessoas ligadas às seleções de Irã, Iraque, Senegal e Uzbequistão, além de um árbitro da Somália. Alguns desses países figuram entre os alvos das restrições migratórias adotadas pelo governo Trump.

Na terça-feira (9), a FFIRI (Federação de Futebol do Irã) disse ter tido sua cota de ingressos revogada poucos dias antes do início da Copa do Mundo. A decisão deixa torcedores iranianos que já haviam feito planos de viagem sem a possibilidade de assistir aos jogos da seleção.

Em comunicado, a federação afirmou que já havia iniciado o processo de venda de ingressos para as partidas, mas não poderá mais fornecê-los aos torcedores. Cada federação participante da Copa do Mundo recebe 8% dos ingressos de cada uma de suas partidas.

Além disso, o governo norte-americano concedeu vistos aos jogadores, mas não a todos os integrantes da comissão técnica. Cerca de 15 membros da delegação receberam uma negativa, entre eles o presidente da Federação de Futebol do Irã, Mehdi Taj.

A seleção de futebol do Irã, que está concentrada no México para a Copa do Mundo de 2026, viajará para os EUA um dia antes de sua estreia contra a Nova Zelândia.

Anteriormente, o embaixador iraniano no México havia afirmado que a seleção de seu país teria de entrar e sair dos EUA no mesmo dia de suas partidas.

Outra nacionalidade afetada pelas restrições migratórias norte-americanas foi a somali. Na segunda-feira (8), os EUA barraram a entrada do árbitro Omar Artan. Ele estava entre os 52 árbitros selecionados para atuar na competição, que será realizada nos EUA, México e Canadá.

Artan seria o primeiro árbitro da Somália a apitar uma edição da Copa do Mundo e teve sua entrada no país negada após mais de 11 horas de interrogatório. “Acho que eles têm um problema com o meu país”, afirmou em entrevista, negando ter qualquer problema relacionado ao visto.

A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, na sigla em inglês) afirmou, em comunicado, que, “após inspeção, o viajante, um árbitro da Copa do Mundo da Fifa, foi considerado inadmissível devido a preocupações de segurança e teve sua entrada negada”. Procurada, a Fifa disse que “não se envolve no processo de imigração dos países-sede, incluindo a concessão de vistos”.

Em dezembro do ano passado, o republicano descreveu o país africano como “podre” e disse não querer cidadãos somalis nos EUA. “Eles não têm nada, apenas ficam se matando”. Ilhan Omar, uma deputada federal democrata de origem somali e muito crítica a Trump, é constantemente alvo do republicano, que já afirmou que ela deveria ser “internada” e removida do país.

Na terça-feira (9), também viralizou um vídeo de jogadores do Senegal, do grupo I, sendo revistados na área de embarque no aeroporto de Raleigh, na Carolina do Norte. As imagens teriam sido gravadas no domingo (7). Nas imagens, um jogador chega a ter que tirar os sapatos durante a revista.

A seleção do Uzbequistão também foi submetida a inspeção. O time joga no grupo K. A comissão técnica comandada pelo treinador italiano e ex-campeão do mundo Fabio Cannavaro foi recepcionada por cães farejadores e detectores de metais antes do amistoso contra a Holanda na segunda-feira (8), que aconteceu no estádio Icahn, em Nova York:

No sábado (6), o atacante iraquiano Aymen Hussein foi submetido a um interrogatório de quase sete horas no aeroporto O’Hare, em Chicago, segundo um porta-voz da seleção do país. O jogador marcou o gol que garantiu a classificação da equipe para a Copa do Mundo.

Hussein acabou sendo liberado, mas o fotógrafo da delegação foi impedido de entrar nos EUA.

A política anti-imigração do governo de Donald Trump tem sido baseada na limitação de entrada e deportação de imigrantes em situação irregular, mas muitos estrangeiros com status migratório temporário, mas legal, também são abordados e expulsos.

Recentemente, medidas para barrar cidadãos de determinados países foram adotadas após um cidadão afegão atirar, em novembro do ano passado, contra dois membros da Guarda Nacional em Washington, a um quarteirão da Casa Branca.

À época, Trump afirmou que suspenderia a imigração de países do chamado “Terceiro Mundo”. “[A medida serviria] para permitir que o sistema dos EUA se recupere totalmente; para encerrar os milhões de admissões ilegais promovidas por Biden [ex-presidente democrata], incluindo aquelas autorizadas pela caneta automática do sonolento Joe Biden; e para remover qualquer pessoa que não represente um ativo líquido para os Estados Unidos”, escreveu na rede Truth Social.

Desde então, solicitações de imigração foram suspensas para cidadãos de 19 países, que já enfrentavam restrições de entrada no território americano desde junho de 2025. Em dezembro daquele ano, outros 20 países foram adicionados à lista. Somália e Irã estavam entre os países afetados pelas restrições. As medidas foram posteriormente suspensas por um juiz federal do distrito de Rhode Island, nos EUA.

Os EUA mais que dobraram o número de deportações sob Trump, com 113 mil imigrantes removidos em nove meses, segundo dados de janeiro a setembro de 2025.

Há temor de que esse processo se intensifique durante a Copa do Mundo. Em documento divulgado em abril, mais de 120 organizações americanas alertaram torcedores, jogadores e jornalistas estrangeiros sobre riscos significativos de violações de direitos humanos durante o torneio.

No documento, intitulado “Aviso aos Viajantes”, as entidades chamam a atenção para a possibilidade de negação arbitrária de entrada no país, detenções sem garantias legais, deportações e tratamentos desumanos no contexto da política migratória adotada pelo governo Trump.

As entidades signatárias do documento fizeram um apelo direto à Fifa, solicitando que a organização utilize sua influência para pressionar o governo americano e exigir mudanças concretas nas políticas imigratórias do país.

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