Filme crítico ao governo do Irã é o primeiro feito com IA a estrear em grande festival
Cena do filme 'Dreams of Violet', feito com inteligência artificial - Divulgação
Ash Koosha estava em Londres, não em Teerã, quando a internet ficou fora do ar na capital iraniana durante uma repressão governamental violenta contra manifestantes em janeiro. Alguns videoclipes e evidências fotográficas acabaram vazando aos poucos.
Mas Koosha, que nasceu no Irã, entendeu que a verdadeira extensão do sofrimento talvez nunca fosse totalmente conhecida. Então, junto com seu irmão, Pooya Koosha, ele começou a trabalhar em “Dreams of Violets” —traduzido para “Sonhos de Violetas—, um docudrama de 75 minutos no qual todas as imagens foram criadas por inteligência artificial generativa.
Na tela, policiais descarregam suas armas, explosões de fogo tomam as ruas e uma criança observa o caos sem conseguir respirar. Mas a produção do filme foi feita de dentro de um apartamento em Londres. Não havia atores, cenários nem câmeras.
Ash Koosha, cineasta de primeira viagem que deixou o Irã em 2009, disse: “A velocidade importa aqui, certo? Jornalistas estão correndo para verificar as coisas. Organizações humanitárias estão correndo e artistas estão correndo. Todos estão tentando contar a história.”
O filme de Koosha é um memorial, ele diz, em um momento em que o jornalismo não era possível.
“Dreams of Violets” teve sua estreia mundial no Festival de Tribeca, em Nova York, na semana passada, tornando-se o primeiro longa-metragem live-action completamente gerado por IA a ser aceito por um grande festival de cinema, segundo a Fountain 0, o estúdio por trás do projeto. Koosha escreveu o roteiro e projetou o pipeline de produção com IA para dar vida à obra.
“Ele está usando o que conhece, a tecnologia que tem, como seu pincel, como seu teclado, como sua forma de se expressar”, disse Jane Rosenthal, uma das principais produtoras de Hollywood e cofundadora do Tribeca, que ajudou a levar uma versão aprimorada por IA de “O Mágico de Oz” para a Sphere em Las Vegas.
Rosenthal está entre os poderosos de Hollywood que estão abraçando o que veem como a ascensão inevitável da IA no cinema e na televisão.
“Este filme não existiria sem essa tecnologia. Você não está substituindo nada nem ninguém”, diz Rosenthal. “A caixa de Pandora foi aberta, precisamos aprender a lidar com isso.”
Mas o tema continua divisivo. Alguns consideram a IA uma assassina de empregos, uma ferramenta para acelerar na corrida implacável para fazer filmes mais baratos. Outros a veem como uma ameaça existencial à sociedade.
A estreia de “Dreams of Violets” teve boa presença de público, atraindo uma fila animada do lado de fora do AMC 19th Street, no bairro de Flatiron, em Manhattan. Quando os espectadores começaram a sair, ficaram em pequenos círculos de discussão, pesando os méritos do filme contra suas ressalvas.
Alguns acharam evidente que as imagens haviam sido geradas por IA e não filmadas, enquanto outros disseram estar chocados com o quão reais as pessoas pareciam. Mas mesmo aqueles que consideraram alguns dos visuais gerados por IA do filme abaixo do esperado entenderam a lógica por trás do uso da tecnologia pelo cineasta.
Andres Ramirez, um cineasta, foi crítico, chamando algumas cenas de “cartunescas” e semelhantes a “gráficos de PlayStation 2 antigo”. As reações emocionais dos personagens, acrescentou, nem sempre pareciam genuínas. Mesmo assim, ele tinha certeza de que “Dreams of Violets” seria o filme mais comentado do festival.
Koosha, que trabalha com IA há anos, fez o filme nas horas da madrugada e início da manhã, fora do seu trabalho diurno em uma empresa de tecnologia. O projeto todo custou cerca de 2.000 dólares, disse Tom Rogers, o produtor executivo.
Enquanto Koosha desenvolvia seu roteiro, ele podia olhar para as imagens sendo geradas e combiná-las. Um processo de “escrever enquanto você gera e depois corrigir”, disse ele.
“Você está olhando para 30 minutos de filme com correção de cor, pronto para usar”, disse Koosha. “E então você pensa ‘não gostei’. E volta e faz tudo de novo.”
Bem no final do processo, Koosha disse que ajustou duas cenas que haviam começado a preocupá-lo. As mudanças levaram cerca de uma hora.
Esse tipo de mudança radical no processo de produção cinematográfica desanimou alguns na indústria. Proteções contra IA generativa foram uma demanda central durante as greves trabalhistas em 2023; entretanto, nos últimos meses, trabalhos com IA têm sido exibidos.
Um filme de 95 minutos gerado por IA chamado “Hell Grind” estreou no Mercado do Filme, no Festival de Cannes. Em uma conferência apresentada pelo sindicato dos produtores, um palestrante perguntou aos membros da plateia se haviam sido solicitados a incorporar IA em seus trabalhos, e três em cada quatro mãos se levantaram. Ainda este mês, Rosenthal será jurada em um festival de filmes de IA planejado em Nova York e Los Angeles.
Renata Plaut, que havia ido à estreia de “Dreams of Violets” curiosa sobre os aspectos técnicos do filme, disse que ele mostrou que a tecnologia de IA tem seu lugar no entretenimento. Ela também apreciou a missão do diretor de conscientizar sobre a situação dos iranianos.
Andres Ramirez, o cineasta, sustentou que atrocidades retratadas por IA simplesmente não têm o mesmo impacto que “a coisa real”. Ele finaliza dizendo: “Acho que sempre vou me perguntar como seria o documentário deste filme.”
