Governo paraguaio se reúne com embaixador brasileiro, manifesta ‘repúdio’ a fala de Lula e pede devolução de canhões de guerra

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O presidente Lula durante cerimônia em Brasília, em 22 de julho de 2026 — Foto: REUTERS/Adriano Machado

Por Filipe Matoso e Daniel Médici, do g1, e Folhapress

O Ministério das Relações Exteriores do Paraguai divulgou um comunicado nesta sexta-feira (31) no qual informou que o vice-presidente Pedro Alliana e o chanceler Rubén Ramírez Lezcano entregaram ao embaixador brasileiro em Assunção, José Marcondes, uma nota em “rejeição” a declarações do presidente Lula, na qual pede também a devoluão de troféus de guerra tomados pelo Brasil no século XIX.

O encontro aconteceu após o governo paraguaio ter tomado conhecimento de que, em um evento no estado de São Paulo, o presidente Lula se referiu à guerra do Paraguai.

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🔎 No último dia 24, Lula fez um discurso em Jacareí (SP) defendendo investimentos para a defesa nacional. Ele afirmou que o Brasil gosta de paz, mas que não poderia se esquecer da Guerra do Paraguai, no século 19.

Conforme o comunicado divulgado nesta sexta, o vice-presidente e o chanceler paraguaios que o Brasil e o Paraguai são países “irmãos” e, diante disso, apresentaram ao embaixador um caminho para “fechar definitivamente as feridas” da guerra.

A nota também pede a “devolução do canhão ‘Presidente López’, do canhão ‘Cristiano’ e de outros troféus de guerra” que ficaram com o Brasil após a vitória no conflito, no século XIX.

“O governo do Paraguai entregou [no encontro com o embaixador] uma nota na qual expressou seu desagrado e seu absoluto repúdio às recentes declarações do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva sobre episódios da Guerra da Tríplice Aliança”, afirma um trecho do comunicado divulgado pela chancelaria paraguaia.

“O governo sustenta que as manifestações representam de maneira distorcida feitos históricos de singular relevância para o povo paraguaio e enfatiza que os acontecimentos que marcaram profundamente a história de ambas nações devem ser abordadas com responsabilidades, respeito recíproco e espírito de reconciliação”, diz um outro trecho.

Canhão 'El Cristiano' no Pátio Epitácio Pessoa, no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro — Foto: Cristina Boeckel/ g1
Canhão ‘El Cristiano’ no Pátio Epitácio Pessoa, no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro — Foto: Cristina Boeckel/ g1

Embaixadores negam intenção de ofender

Conforme relatos de integrantes da diplomacia brasileira, durante o encontro, o embaixador José Marcondes explicou o contexto no qual as declarações de Lula foram dadas e afirmou que “em nenhum momento houve intenção de ofender o Paraguai.”

“Ele lembrou a histórica amizade do Brasil com o Paraguai, reforçada nos períodos em que o Presidente Lula governa o Brasil”, declarou um diplomata a par da reunião desta sexta.

Propostas do Paraguai

Conforme a nota divulgada pela chancelaria do Paraguai, o país fez uma série de pedidos ao Brasil como forma de “fechar feridas”, entre as quais:

  • devolução dos canhões Presidente López e Cristiano;
  • devolução de demais troféus de guerra;
  • devolução de documentos da guerra.

Vice-presidente do Paraguai diz não querer aprofundar rusga

O vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, afirmou nesta sexta-feira (31), logo após entregar uma nota de repúdio ao embaixador brasileiro em Assunção, que não quer estender a rusga com o país vizinho às vésperas das eleições de outubro.

“Nós também não queremos aprofundar muito essa questão […] em plena campanha eleitoral”, afirmou Alliana, vice do direitista Santiago Peña, ao ser questionado por um jornalista em uma entrevista coletiva após o encontro. “O que menos queremos é que eles pensem que pretendemos interferir nas eleições.”

O imbróglio começou no último dia 24, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) citou a Guerra do Paraguai durante uma visita a uma companhia de defesa em Jacareí (SP). “Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil”, disse o petista.

A declaração não está equivocada, mas a mera menção ao conflito do século 19, o maior da América Latina e responsável por devastar o país vizinho, foi suficiente para que o governo paraguaio fosse pressionado por dias a tomar ações mais duras contra o governo Lula —o que aconteceu nesta sexta.

A nota, endereçada ao ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, afirma que o governo “manifesta formalmente seu desagrado por essas declarações” e as rejeita “em todos os seus termos” por distorcerem “fatos históricos de singular relevância para o povo paraguaio”.

“Os acontecimentos que marcaram profundamente a história de nossos povos devem ser abordados com responsabilidade e espírito de reconciliação, com base no respeito recíproco e no reconhecimento da complexidade dos processos que determinaram seu desenvolvimento”, diz o comunicado.

O Paraguai aproveitou para pedir itens da guerra que estão no Brasil —uma demanda histórica de Assunção. O comunicado menciona o canhão Presidente López, o canhão Cristiano e “cópias de todos os documentos históricos sobre a Guerra da Tríplice Aliança”, continuou, com o nome que o país adotou para o conflito.

Em julho de 2023, antes de tomar posse como presidente, Peña trouxe o assunto à baila em uma conversa com jornalistas durante visita a Taipé, a capital da ilha de Taiwan. “Não tenho ressentimentos, ódio ou raiva, mas acho que seria bom. Adoraria ter esse tipo de conversa com o presidente Lula, mas de uma forma positiva, não com uma reclamação”, disse ele na ocasião.

Segundo afirmou Alliana nesta sexta, o embaixador José Antônio Marcondes de Carvalho, no Paraguai desde 2022, disse que a declaração foi tirada de contexto e que a intenção do presidente Lula nunca foi insultar o Paraguai.

A declaração do vice-presidente parece tentar esfriar a tensão com o Brasil, que enfrenta atritos também com a Argentina após o presidente Javier Milei atacar Lula durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), em São Paulo.

No caso com Buenos Aires, o Brasil reagiu no dia seguinte chamando o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, e o representante de Brasília em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestar esclarecimentos. O brasileiro ainda não voltou ao seu posto desde então.

Já o Paraguai precisou de uma semana e dezenas de reações de autoridades e figuras públicas para entregar a nota ao embaixador.

“Lula, você está falando com muita leviandade sobre a maior tragédia da nossa história, o maior genocídio do nosso continente”, afirmou, por exemplo, o presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai e aliado de Peña, Raúl Latorre, no domingo (26). “A Guerra da Tríplice Aliança, que começou com a intervenção militar do Brasil no Uruguai, devastou o Paraguai e marcou para sempre o nosso povo.”

A senadora de esquerda Esperanza Martínez, opositora do presidente, disse que as declarações de Lula eram “remanescentes do imperialismo que tentam encobrir uma guerra criminosa e uma política histórica de dominação e abuso da elite brasileira” contra o Paraguai.

Guerra do Paraguai

A Guerra do Paraguai, também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança, foi o maior conflito armado da história da América do Sul. Travada entre 1864 e 1870, ela colocou o Paraguai contra a aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai.

O conflito começou em meio a disputas políticas na região do Rio da Prata. Em 1864, o governo brasileiro interveio militarmente no Uruguai durante uma guerra civil no país vizinho. O então ditador paraguaio, Francisco Solano López, considerou a ação uma ameaça ao equilíbrio regional e reagiu apreendendo um navio brasileiro e declarando guerra ao Brasil.

A guerra se estendeu por quase seis anos e teve algumas das batalhas mais sangrentas da história do continente, como Tuiuti, em 1866. Apesar de sucessos militares iniciais, os paraguaios passaram a sofrer sucessivas derrotas à medida que o conflito avançava.

As consequências foram especialmente severas para o Paraguai. Além da destruição de boa parte da infraestrutura do país e da perda de territórios, o conflito provocou uma grave crise demográfica.

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