Prioridade de Lula deve ser apagar incêndio com nome para Fazenda, diz Garman, do Eurasia

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por Folhapress

Christopher Garman, 51, mestre em ciência política e diretor-executivo para as Américas na Eurasia Group (empresa de consultoria e análise de risco)
Christopher Garman, mestre em ciência política e diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group, empresa de consultoria e análise de risco – Eurasia/Divulgação

O diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group, Christopher Garman, avalia que a prioridade máxima para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve ser escolher, nos próximos dias, o nome do ministro da Fazenda para encaminhar uma operação “apaga-incêndio” da crise de confiança instalada no Brasil após a vitória nas eleições.

Para ele, os dois nomes hoje mais fortes para o cargo são o do governador do Piauí, Rafael Fonteles, e o do vice-presidente Geraldo Alckmin. “Fonteles é um nome que o mercado estaria disposto a aceitar. Ele tem uma reputação de experiência de gestão fiscal”, diz ao C-Level Entrevista, videocast da Folha.

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Garman afirma que Lula entrará no quarto mandato em situação diferente da que teve em 2022, quando tinha um grau de liberdade maior para agir.

“As contas estão numa situação mais precária, a credibilidade do governo do lado fiscal está no chão, o custo de oportunidade de não fazer nada é maior hoje”, afirma. “O que me preocuparia, e eu acho que o mercado não compraria, é um ajuste gradual onde você não ataca as regras do gasto obrigatório.”

Após a reação do mercado, como o governo vai poder retomar a confiança dos investidores?
A gente já vinha com uma classe de investidores olhando a credibilidade do manejo fiscal do atual governo como muito baixa. Ao longo desse processo eleitoral, essa credibilidade fiscal se deteriorou ainda mais com todos os anúncios de medidas de mais gasto, de cunho populista, que foram feitas para poder vencer nas urnas. A gente entrou nessa eleição com o mercado muito posicionado para uma vitória do Flávio Bolsonaro.

Então o pânico na segunda-feira (26) também é fruto de que o mercado não estava bem posicionado para esse resultado, dado o contraste enorme entre as pesquisas e o resultado.

A grande pergunta é como o governo Lula vai lidar com essa crise de confiança. Vai depender não só das indicações para os postos-chave –em particular Fazenda e Casa Civil–, e igualmente, se não mais importante, que tipo de reforma pode ser colocada na mesa para tentar endereçar o aumento do gasto obrigatório e uma dinâmica da dívida muito preocupante.

Se nesse quarto mandato os sinais são mais construtivos e alguma correção de rumo é dada, há condições para uma volta desses preços de ativos [de] gerar condições mais benignas para que o Banco Central possa reduzir juros.

Existe diferença de perspectiva entre os investidores estrangeiros e brasileiros?
O estrangeiro está mais disposto a amenizar dificuldades do lado fiscal, porque está olhando um portfólio muito grande de alternativas globalmente, e a alocação [de dinheiro aplicado] no Brasil não é muito grande. Eu diria que eles estão um pouco mais propícios a dar o benefício da dúvida dada a posição relativa que tem [o Brasil] no seu perfil de investimentos.

Em 2022, já havia uma desconfiança em relação à questão fiscal, mas o presidente não correu para anunciar o ministro da Fazenda. Quanto tempo Lula tem para fazer esse anúncio agora?
A crise de confiança agora está muito maior. Quatro anos atrás, quando Lula ganhou, é claro que houve uma correção dos preços de ativos, mas havia uma certa boa vontade com relação ao presidente, particularmente dos investidores estrangeiros, esperando que ele pudesse ter uma postura responsável do lado fiscal. Essa expectativa foi frustrada com os primeiros sinais do terceiro mandato, na PEC da transição.

E aí o governo teve que correr atrás do prejuízo, com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, encaminhando a nova regra fiscal, que foi colocada na mesa logo depois da eleição. Mas o governo entrou com mais grau de liberdade.

Dessa vez, as contas estão numa situação mais precária, a credibilidade do governo do lado fiscal está no chão, o custo de oportunidade de não fazer nada é maior hoje.

O Congresso que vai assumir em fevereiro tem um perfil mais conservador e possivelmente mais hostil. Então, está crescendo o diagnóstico de encaminhar uma proposta fiscal de imediato, com vistas possivelmente a aprovar algo antes da posse, no mesmo caminho da PEC da transição há quatro anos, mas dessa vez na direção de controlar o gasto obrigatório.

A bolsa de apostas fala nos nomes do vice-presidente Geraldo Alckmin, do governador do Piauí Rafael Fonteles e do senador Camilo Santana (PT-CE) para a Fazenda.
Me parece que a prioridade máxima nesses próximos dias é escolher o ministro da Fazenda para tentar encaminhar uma operação de apagar o incêndio dessa crise de confiança e trabalhar possivelmente com uma proposta que possa ser enviada já no mês de novembro para o Congresso Nacional, antes da posse em janeiro.

Eu diria que talvez os dois nomes mais fortes de fato são o vice-presidente [Alckmin] e o governador do Piauí, Rafael Fonteles. O senador Camilo Santana parece um nome mais forte para Casa Civil. O ex-ministro Fernando Haddad saiu enfraquecido com a eleição em São Paulo. Ele era visto por muitos como provável para ser o ministro-chefe da Casa Civil, permanece no páreo, mas a convicção dessa aposta tem caído.

Acredito que o mercado compraria mais o nome de Fonteles e do vice-presidente, e menos do senador Camilo Santana. A escolha do ministro vai ser vista como sinal de compromisso com ajuste das contas fiscais. Então, não só é um nome, mas igualmente importante, eu diria, é o desenho dessa nova regra, o quão dura ela será e se dá para poder extrair regras que limitam o crescimento do gasto para abaixo de 2% [do PIB] em termos reais, pelo menos.

O sr. vê espaço para outros nomes surgirem? Também se fala no nome do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e do ex-ministro e senador Renan Filho (MDB-AL).
Perante o mercado [Galípolo] talvez seria o nome mais respeitado. A gestão dele à frente do Banco Central foi muito bem vista, o compromisso com as metas de inflação, de seguir de forma técnica e com credibilidade. Ele na Fazenda traria essa credibilidade de largada em comparação com os outros dois nomes.

Mas ele tem gerado atritos com o partido, e uma controvérsia também sobre o debate da indicação para o BC, [em que] entrou em conflito com Haddad. Ele tem a confiança do presidente, mas desagrada ao resto do partido.

O presidente também tem que dar satisfação para alas do partido que o ajudaram nessa eleição. Daí os nomes de Fonteles e Camilo Santana. Fonteles é um nome que o mercado estaria disposto a aceitar. Ele tem uma reputação de experiência de gestão fiscal, de gestão do Comsefaz [comitê de secretários de Fazenda dos estados], já foi secretário de Fazenda, e tem um currículo acadêmico robusto.

Durante esse mandato, Haddad chegou a propor um pacote de medidas de ajuste mais duras que não foram para frente por resistência do PT. Como o senhor enxerga esse equilíbrio de forças no Lula 4?
O debate encaminhado dentro do governo dois anos atrás pelo Haddad, trazendo várias propostas de reforma fiscal para controlar o gasto obrigatório, gera um ambiente mais propício para fazer essas reformas agora.

Durante a campanha Lula reclamou da “babaquice do superávit” e disse que a maneira de controlar a dívida é crescendo o PIB. Não são sinais de que ele relutará em fazer um ajuste?
Vamos deixar muito claro: o que nós estamos falando não é corte de gasto, não é um ajuste clássico que você possa fazer uma economia de 2% do PIB ou algo desse gênero. O que eu acho mais factível é encaminhar uma reforma das regras do gasto obrigatório que são compatíveis com limitar o aumento de gasto para abaixo de 2% em termos reais.

Dado esse perfil de uma crise de confiança, e interlocutores dizendo para o presidente que se não fizer nada não haverá condições de reduzir a taxa de juros, é uma mensagem que o presidente do Banco Central também deve encaminhar para o presidente Lula. O presidente, ao longo da sua carreira política, tem se mostrado uma liderança pragmática que reage a incentivos. O custo de não fazer nada está se avolumando.

Como vê a governabilidade nesse quarto mandato?
Em 2027 você vai retirar o estímulo fiscal e de crédito. Se a aprovação do presidente está em 45%, com desemprego a 5% e a renda real subindo 19% nos últimos três anos, imagina quando a economia desacelerar. Então eu acredito que a aprovação vai estar numa trajetória de queda.

Não me surpreenderia que a aprovação dele esteja abaixo de 40% em algum momento do ano que vem. Então, a minha preocupação é sobre como Lula reagiria a uma queda na taxa de aprovação, com um Congresso mais hostil e conservador. O presidente vai estar pensando no legado.

O risco que eu enxergo é que ele venha a tomar medidas para tentar manter o apoio popular. E provavelmente veremos alguma versão de taxar o andar de cima ou o setor produtivo, visando a redução de desigualdades de renda, para dar benefícios para a classe média. E essas medidas podem minar a produtividade e podem minar a capacidade do BC reduzir juros ao longo do ano que vem.

Se o ajuste não for suficiente, o presidente estará jogando o mandato dele para um cenário de maior dificuldade?

Muito vai depender da credibilidade desse ajuste gradual. O que me preocuparia, e eu acho que o mercado não compraria, é um ajuste gradual onde você não ataca as regras do gasto obrigatório e você faça esse ajuste tentando controlar despesas discricionárias com medidas dentro do Executivo. Quando o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, fala de um ajuste fiscal sem a necessidade de uma reforma constitucional, perde credibilidade.


RAIO X | CHRISTOPHER GARMAN, 56

Um dos principais analistas políticos globais com experiência no Brasil e América Latina e advisor de conselhos e comitês executivos das principais multinacionais e instituições financeiras. Possui mestrado em Ciência Política pela Universidade da Califórnia, em San Diego, e bacharelado pelo Grinnell College.

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