Assessor de padre Júlio Lancellotti é réu por falsidade ideológica e comanda instituto que recebeu R$ 500 mil

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por Folhapress

O padre Júlio Lancellotti (à dir.) ao lado de seu assessor, Marcelo Augusto de Sousa e Silva (à esq.); Marcelo é réu por falsidade ideológica e outros dois crimes numa ação que tramita na Justiça do Pará – Reprodução/Marcelo Augusto no Instagram

A paróquia São Miguel Arcanjo, do padre Júlio Lancellotti, repassou ao menos R$ 500 mil a uma entidade presidida pelo assessor do pároco, Marcelo Augusto de Sousa e Silva, réu sob acusação de falsidade ideológica, falsa identidade e falsificação de documento particular num caso pelo qual a Justiça tenta localizá-lo há 12 anos. Ele chegou a ser preso.

O religioso diz não saber do histórico criminal de seu braço-direito. “Não tenho conhecimento de nada disso. Ele é uma pessoa que tem nossa confiança, proximidade. Nenhuma dessas questões interfere no trabalho dele aqui.”

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Marcelo, por sua vez, afirma desconhecer o caso. “Nunca fui citado em nenhuma ação penal em trâmite no estado do Pará”, declarou.

Documentos obtidos pela Folha contradizem essa versão. Marcelo não apenas foi citado —por edital, já que nunca foi encontrado pessoalmente— como foi alvo de um mandado de prisão em 2015 em razão do sumiço. Questionado a respeito do caso, ele parou de responder pouco depois.

A entidade, Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia, conhecida como Mercedário, é sediada na zona leste da capital paulista num prédio de dois andares cedido pela Arquidiocese de São Paulo.

Sem fins lucrativos, ela foi fundada em maio de 2025, reconhecida em cartório em junho e autorizada a funcionar no segundo semestre. O CPF que ele apresentou quando registrou o instituto é o mesmo que consta da ação penal à qual responde e que diz desconhecer.

Os R$ 500 mil foram repassados em setembro. Três meses depois, a Arquidiocese determinou uma auditoria nas contas da comunidade. Sem dizer o que motivou o procedimento, a instituição respondeu que o resultado foi comunicado ao padre “com recomendações do devido rigor e transparência”.

Lancellotti afirma que nenhuma irregularidade foi encontrada. Do contrário, “vocês já teriam colocado em manchete”.

Marcelo é de Santarém (PA) e se mudou para São Paulo enquanto enfrentava problemas com a Justiça paraense. O caso, de junho de 2012, está aberto até hoje.

Ele foi preso na época sob suspeita de estelionato ao tentar cancelar um cartão de crédito numa agência do Bradesco, após o gerente constatar divergências documentais.

O nome na identidade apresentada, Marcelo, divergia do titular da conta bancária, Francisco de Assis da Silva, embora os rostos do documento e do cadastro no banco fossem os mesmos. A conta de Marcelo registrada em nome de Francisco tinha R$ 14 mil em dívidas. O gerente chamou a polícia.

Os agentes encontraram na mochila do então suspeito oito cartões de crédito, um talão de cheque e uma carteira de identidade, “tudo em nome de Francisco”, segundo o PM que atendeu a ocorrência.

Com ele também foram apreendidos uma carteira de frade canônico com seu nome original, Marcelo, e quatro contracheques da Arquidiocese de São Paulo em nome de Francisco.

Em depoimento, Marcelo confessou o crime e disse que conseguiu os cartões através de um amigo da prefeitura “que lhe passou cópias de RG e CPF de várias pessoas, entre as quais de Francisco”.

Ele ficou detido pouco mais de uma semana. Foi solto em 29 de junho mediante fiança e medidas cautelares. Não podia deixar a comarca sem autorização judicial e tinha de atestar presença no fórum todo mês.

Marcelo foi denunciado em maio de 2014 e se tornou réu em junho. Depois, porém, nunca mais foi encontrado.

O primeiro oficial de Justiça que tentou intimá-lo declarou ter sido recebido por sua mãe. Ela lhe disse que o filho se mudado para São Paulo “faz mais de um ano” e estava “morando em um convento, sem saber endereço nem telefone de contato”.

A Polícia Civil do Pará perguntou para a Arquidiocese de São Paulo se havia algum funcionário ou ex-funcionário chamado Francisco de Assis da Silva. O arcebispo dom Odilo Pedro Scherer respondeu que não.

O nome de Marcelo não aparece no ofício, mas a Arquidiocese disse à Folha que ele nunca trabalhou lá. Segundo a instituição, ele “não tem e nunca teve vínculo institucional com a Arquidiocese de São Paulo. Sua relação é pessoal com o padre Júlio”.

Desaparecido aos olhos da Justiça, ele foi citado via Diário Oficial e até hoje não apresentou defesa no caso. A Justiça chegou a decretar sua prisão em 2015, mas o mandado venceu sem nunca ter sido cumprido.

O Ministério Público indicou sem sucesso endereços para citá-lo em São Paulo. Em sua última manifestação, em junho, a promotora Renata de Campos devolveu o caso ao cartório “considerando a suspensão do processo e do prazo prescricional”.

Marcelo tem uma rotina ativa como presidente do instituto e assessor de Lancellotti.

A Arquidiocese diz que párocos têm autonomia para escolher auxiliares, mas que “naturalmente não poderá concordar que a função seja confiada” a Marcelo caso confirme as acusações citadas pela Folha nas perguntas encaminhadas por email.

Marcelo pode fazer praticamente tudo sozinho no Mercedário —a assinatura do presidente basta para “abrir, encerrar e movimentar contas bancárias”, firmar contratos e constituir procuradores segundo o estatuto da entidade.

Ele não quis conceder entrevista, mas encaminhou uma nota segundo a qual “todos os repasses da paróquia foram estritamente empregados nas atividades que compõem a finalidade do instituto”.

A nota diz também que “todos os gastos são submetidos a rigorosa prestação de contas”. A reportagem pediu documentos. Ele disse que disponibilizaria, mas não deu mais retorno.

O padre Júlio concordou em receber a Folha.

Numa rápida entrevista antes de levar a reportagem até o instituto, trajeto durante o qual foi interrompido duas vezes por pessoas que o pediram a bênção, ele perguntou de onde vinham os documentos que fundamentam a reportagem.

O clérigo afirmou que “o instituto é uma entidade autônoma para poder executar os projetos da paróquia, os projetos da pastoral de rua” e disse ter conhecido Marcelo numa congregação religiosa. “Aqui conosco ele atua de maneira adequada e correta.”

Lancellotti disse não ter conhecimento sobre o passado do assessor. “O processo transitou em julgado? Ele está condenado? Vocês que sabem tudo, ele está condenado?”, indagou.

Apontou na sequência para Jesus Cristo.

“O condenado está ali, o condenado que foi acusado. Você já ouviu falar dele? A Folha já ouviu falar dele?”, disse o religioso.

Marcelo foi preso quando tinha 22 anos e na época não havia concluído o ensino médio. Hoje, ele diz em suas redes sociais ter cinco graduações, duas pós-graduações e um MBA.

À reportagem ele disse que filosofia e história foram as primeiras faculdades. Depois, ainda segundo ele, concluiu as demais —letras, pedagogia e educação física— em um ano porque eliminou disciplinas comuns entre as graduações. No caso das pós, segundo ele, foram seis meses para cada uma.

No fim do ano passado, após uma missa de Natal realizada por Lancellotti, Marcelo disse à reportagem que conheceu o padre quatro anos antes.

Na época, segundo ele, sua mãe enfrentava um câncer, e o religioso o apoiou. “Ele nos ajudou com a documentação para o tratamento no Hospital Santa Marcelina.”

Ela acabou morrendo meses depois, mas não sem antes dizer ao filho, em relato do próprio, que estava curada. “Aí eu questionei: mas curada como, mãe? Porque tinha a metástase. E aí ela disse ‘eu estou curada espiritualmente. Siga firme e forte, cuide do padre’. É o que eu tenho feito.”

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