Cultura e educação explicam comportamento nocivo em relação ao corpo feminino, diz especialista

Ilustração sobre figuras do corpo feminino. Foto: Reprodução/CNN

Por Julia Queiroz

“Ela engordou”, “está com barriga”, “não está se cuidando”. Essas falas podem parecer arcaicas para muitos, mas ainda são comuns em comentários nas publicações de muitas mulheres nas redes sociais, em especial das que estão em destaque na mídia.

Na última quarta-feira, 18, a atriz Paolla Oliveira gravou um vídeo respondendo internautas que levantaram a possibilidade dela estar grávida. Os comentários surgiram após a atriz publicar outro vídeo, no qual mostrava sua roupa para participar de um ensaio da escola de samba em que ela é rainha de bateria, a Grande Rio.

“Fiquei pensando que esse é um papo muito sério e pode ser um gatilho para muitas mulheres”, disse ao lembrar que muitas ainda buscam alcançar padrões estéticos e “foram ensinadas” a se preocuparem demais com a aparência e o corpo.

“Vocês acharam que eu estava com barriga? Quer saber? Com barriga ou sem barriga, eu estava me achando linda e isso que importa. E vem cá, gente: nem toda barriga é de bebê não”, completou.

A cantora e atriz norte-americana Selena Gomez também foi vítima de críticas sobre seu corpo após compartilhar fotos de uma viagem com amigos no início de 2023. Os comentários aumentaram depois que a artista fez uma aparição no Globo de Ouro no último dia 10.

Após a premiação, ela fez uma live no Instagram ao lado da irmã e chegou a dizer: “Estou um pouco grande agora, porque eu aproveitei os feriados de fim de ano. Mas a gente não se importa”.

Personalidade que constantemente rebate comentários gordofóbicos, Jojo Todynho gravou um vídeo ainda na última quinta, 19, respondendo usuários que diziam que “não viam diferença” no corpo dela após começar a malhar.

“Quem tá malhando não está malhando para você ver diferença não. O corpo não é seu. Cuida da sua vida. Você é médico, nutricionista, endocrinologista? Qual é a sua formação?”, questionou a cantora.

Jojo ainda apontou que esses internautas não estão preocupados com o peso da pessoa, mas sim em externalizar o preconceito deles.

Eliana Santos de Farias, professora do curso de Psicologia do Centro Universitário Braz Cubas, aponta que o comportamento nocivo de alguns usuários em relação às mulheres pode ser explicado por duas vias: cultura e educação.

A primeira nos lembra que as mulheres da sociedade brasileira e de sociedades semelhantes com a nossa foram historicamente criadas para estarem em segundo plano.

“Essa mulher está em uma posição em que ela é muito mais essa pessoa que figura algo bonito ou que deveria estar ali para compor a decoração, para harmonização social, do que de fato alguém que está ali para fazer suas próprias escolhas e para viver plenamente”, diz.

Para a especialista, isso explica porque algumas pessoas se espantam quando uma mulher não usa maquiagem ou, na visão delas, não cuidou de sua aparência.

“Uma outra explicação, que passa pela educação, é o quanto nós vamos falando de mulheres importantes da história e a gente pouco valoriza o que de fato elas fizeram. Não só como profissão e fonte de renda, mas o que elas fizeram na história, que escolhas elas tiveram, o porquê dessas escolhas”, completa.

Eliana explica que, no momento em que vivemos hoje, algumas pessoas acreditam que mulheres ainda devem ocupar esse espaço estético e que, com a quantidade de exposição vinda das redes sociais, esse tipo de pensamento atinge um patamar ainda maior.

A busca pelo corpo perfeito

“A psicanálise diz que quando eu aponto no outro é algo em mim. Em mim, eu tenho dificuldade de ver, mas no outro é mais fácil, né? Isso é um mecanismo de defesa que a gente chama de projeção”, diz Eliana.

Para ela, isso pode ser também uma explicação de por que muitos comentários sobre o corpo das mulheres partem de outras mulheres, já que são elas que mais sofrem com a pressão estética da sociedade.

De acordo com Yuri Busin, psicólogo, mestre e doutor em Neurociência do Comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, esse comportamento também pode ser uma forma do que ele chama de “protecionismo”.

“Eu equalizo o outro, acho defeito no corpo dos outros, faço algum tipo de apontamento negativo para que isso se torne uma situação na qual eu me sinta melhor. Pode ser que isso ocorra, mas não necessariamente é uma regra”, diz.

O especialista destaca que é importante se policiar quando pensarmos em fazer um comentário sobre o corpo de outra pessoa e que o primeiro passo para isso é o desenvolvimento da empatia, ou seja, se colocar no lugar do outro.

“Nós temos que trabalhar nossa autoestima, as nossas inseguranças e os nossos métodos de defesa, para que isso não nos machuque cada vez mais. Senão, a gente acaba executando um comportamento com o próximo do qual nós não gostamos que as pessoas tenham com a gente”, completa.

Quais as consequências e como lidar?

Mesmo que os comentários sejam recorrentes para mulheres em exposição na mídia, esse comportamento se reflete para diversas meninas e até mesmo para os homens. O crescimento das cirurgias plásticas, por exemplo, é uma das consequência disso.

“Nos últimos 10 ou 15 anos, a pressão estética para todo mundo se tornar ‘perfeito’ aumentou muito e a gente percebe que os pacientes, os jovens mesmo, não aceitam determinados tipos de ‘defeitos’ que sempre foram normais”, diz Wendell Uguetto, cirurgião plástico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e do Hospital Albert Einstein.

O médico argumenta que, na era das redes sociais, é comum que pacientes busquem procedimentos estéticos baseados na aparência de influenciadores digitais, mas não levam em consideração a ação dos filtros e edições de imagem.

“A questão de você fazer um procedimento estético por pressão é que, muitas vezes, o que está te desagradando não é que desagrada você, mas sim as outras pessoas. Então, é muito difícil depois você ter um certo grau de satisfação com o resultado final. E isso vai levar à busca de mais procedimentos”, completa.

Para o psicólogo Yuri Busin, uma das maneiras de cuidar da autoestima é fazer uma lista de coisas positivas sobre si mesmo: “Todos nós temos, só temos que aprender a olhar e isso é uma coisa que as pessoas não costumam fazer”.

Ele e Eliana destacam, também, a importância da terapia e do autoconhecimento. “No sentido oposto, também temos mulheres que conseguiram encontrar o seu ponto de equilíbrio emocional e que, ao invés de gastar o seu tempo de vida apontando o corpo da outra, buscam olhar para elas mesmas”, diz a professora.

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