Oito em cada dez árvores analisadas em ruas de cidades da Paraíba são exóticas, aponta estudo

0

por TH+ SBT

Uma pesquisa sobre a arborização de dez cidades da Paraíba revelou uma forte predominância de espécies que não pertencem naturalmente à flora local. Das 1.381 árvores analisadas, 80,5% dos indivíduos eram de espécies não nativas, enquanto aproximadamente 60% pertenciam a espécies classificadas como exóticas invasoras.

cropped-AMBIPAR-BANNER
previous arrow
next arrow

O levantamento analisou ruas de Alagoa Grande, Cajazeiras, Campina Grande, Esperança, Guarabira, Patos, Pombal, Queimadas, São Bento e Sousa, todas localizadas dentro dos limites da Caatinga paraibana.

O estudo foi publicado na revista científica internacional Biotropica e teve participação de pesquisadores ligados, entre outras instituições, à Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Instituto Nacional do Semiárido (Insa). O artigo científico foi publicado em julho deste ano.

Os pesquisadores alertam que a predominância de árvores exóticas, principalmente invasoras, pode reduzir a capacidade das áreas urbanas de abrigar a biodiversidade característica da Caatinga.

Nim representa mais da metade das árvores analisadas

Uma única espécie chama atenção pela dimensão de sua presença: o nim indiano (Azadirachta indica).

Foram identificados 700 exemplares de nim entre as 1.381 árvores, o equivalente a pouco mais da metade de toda a amostra. A espécie apareceu nas dez cidades pesquisadas e foi a árvore dominante em sete delas.

A segunda espécie mais frequente foi a Ficus benjamina, também não nativa, com 129 exemplares. O ipê-roxo, espécie nativa, apareceu na terceira posição, com 94 indivíduos.

No total, os cientistas catalogaram 69 espécies diferentes. Dessas, 33, ou 47,8%, eram nativas e 36, equivalentes a 52,2%, não nativas. Metade das espécies não nativas encontradas foi classificada como invasora.

Isso significa que há uma diferença importante entre a diversidade de espécies e a quantidade de árvores: pouco mais da metade das espécies catalogadas era exótica, mas elas representavam mais de 80% dos indivíduos encontrados nas ruas analisadas.

Por que o nim preocupa pesquisadores

Originário da Ásia, o nim se espalhou pelo Nordeste devido a características como crescimento rápido, resistência ao clima seco e capacidade de produzir sombra. A espécie também possui substâncias com propriedades inseticidas.

É justamente essa característica que preocupa pesquisadores.

Segundo cientistas ouvidos pela Mongabay Brasil, compostos presentes no nim podem afetar insetos, inclusive polinizadores, e interferir na cadeia ecológica urbana. Árvores nativas, por outro lado, tendem a manter relações mais estreitas com insetos, aves e outros organismos que evoluíram no mesmo ambiente.

A pesquisa também chama atenção para o potencial invasor da espécie. Árvores exóticas invasoras podem avançar para outros ambientes, competir por recursos com plantas nativas e modificar a composição da vegetação.

Impacto também pode chegar às calçadas

Os pesquisadores observaram ainda problemas relacionados à infraestrutura urbana durante o trabalho de campo.

Segundo o levantamento relatado pela Mongabay, espécies exóticas como o nim podem desenvolver sistemas radiculares capazes de provocar danos em calçadas, pisos e outras estruturas urbanas.

Isso não significa que toda árvore exótica provoque danos nem que espécies nativas sejam incapazes de causar problemas estruturais. O planejamento da arborização deve considerar fatores como espaço disponível, tamanho adulto da árvore, raízes, rede elétrica, calçadas e características ambientais de cada local.

Cinco cidades tiveram classificação desfavorável à biodiversidade

O estudo também avaliou a capacidade da arborização das cidades de favorecer a biodiversidade.

Das dez cidades pesquisadas, cinco foram classificadas como desfavoráveis à biodiversidade, devido principalmente à baixa participação de espécies nativas e à elevada concentração de poucas espécies dominantes.

Outras três tiveram classificação mais favorável, enquanto duas ficaram em situação intermediária.

Campina Grande e Alagoa Grande aparecem entre as cidades nas quais a composição analisada apresentou maior domínio de espécies nativas, diferentemente da tendência observada na maior parte dos municípios pesquisados.

Outro resultado mostrou que, quanto maior a presença de asfalto e outras superfícies impermeabilizadas, menor foi a riqueza de espécies nativas encontrada. Essa relação foi estatisticamente significativa para árvores nativas.

Estudo não analisou todas as árvores das cidades

Os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante: o trabalho não é um inventário completo da arborização dos dez municípios.

Em cada cidade, foram analisados quatro trechos de 300 metros de vias públicas. A amostragem concentrou-se principalmente em árvores existentes em calçadas e canteiros centrais e não incluiu, por exemplo, toda a vegetação de parques, quintais e propriedades privadas.

Portanto, o resultado de 80,5% não significa que exatamente oito em cada dez de todas as árvores existentes nesses municípios sejam exóticas. O percentual corresponde aos 1.381 indivíduos catalogados nos pontos definidos pela metodologia científica.

Ainda assim, os autores consideram a amostra suficiente para identificar um padrão preocupante de hiperdominância de espécies exóticas invasoras na arborização das ruas pesquisadas.

Pesquisadores defendem mais espécies nativas

Diante dos resultados, os cientistas recomendam que políticas municipais de arborização deixem de utilizar espécies invasoras, reduzam gradualmente o uso de outras espécies exóticas e ampliem a presença de árvores nativas.

O objetivo não é simplesmente aumentar a quantidade de árvores nas cidades, mas diversificar a arborização e escolher espécies compatíveis com o ambiente urbano e com a biodiversidade regional.

O levantamento abre ainda uma discussão para as prefeituras dos dez municípios: quais espécies continuam sendo plantadas atualmente, se existem planos municipais de arborização e se há políticas para substituir gradualmente espécies invasoras por plantas nativas da Caatinga.

About Author

Compartilhar

Deixe um comentário...

cropped-AMBIPAR-BANNER
previous arrow
next arrow