Pesquisadores estudam pílula anticoncepcional masculina que pode bloquear espermatozoides por até 8 horas

0

por Folhapress

Representação de fertilização com óvulo e espermatozoides
Representação de espermatozoides fertilizando óvulo – Freepik.com/CC

Pesquisadores dos Estados Unidos estudam uma pílula anticoncepcional masculina. Ainda em fase de testes em animais, o medicamento deve ser avaliado em humanos em menos de dois anos, segundo os envolvidos no estudo.

A pílula poderá ser tomada cerca de 30 minutos antes da relação sexual e ter efeito por seis a oito horas. Ela busca bloquear temporariamente a mobilidade dos espermatozoides no sistema reprodutor feminino e impedir a fecundação. A proposta é que, após o período de ação do medicamento, a fertilidade volte ao normal.

cropped-AMBIPAR-BANNER
previous arrow
next arrow

O estudo está sendo liderado por Jochen Buck e Lonny Levin, farmacologistas da Weill Cornell Medicine, nos Estados Unidos, que receberam uma bolsa na ordem de milhões de dólares do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano (NICHD, na sigla em inglês) para avançar no desenvolvimento da pílula.

Em 2024, os pesquisadores afirmaram que o motivo das pesquisas ainda não terem avançado era em parte histórico e em parte cultural. Buck e Levin disseram que havia uma “relutância por parte da indústria farmacêutica em abordar a contracepção masculina”.

O financiamento de agora terá duração de quatro anos e permitirá aprofundar as avaliações de segurança necessárias antes dos testes clínicos. Essa é a terceira bolsa recebida pelos cientistas para o projeto desde 2020.

O medicamento atua sobre a adenilil ciclase solúvel (sAC, na sigla em inglês), uma enzima que desempenha papel essencial na locomoção dos espermatozoides.

Depois da ejaculação, os espermatozoides precisam se deslocar pelo trato reprodutivo feminino até encontrar o óvulo. Ao inibir temporariamente a enzima, a pílula impede que os espermatozoides mantenham o movimento necessário para percorrer esse caminho, impedindo a fecundação.

A estratégia é diferente de outros anticoncepcionais masculinos em desenvolvimento, que buscam reduzir a produção ou bloquear a passagem de espermatozoides.

Segundo Irineu Neto, urologista especialista em reprodução humana, a vasectomia é um dos métodos contraceptivos masculinos eficazes disponíveis. Trata-se de um procedimento cirúrgico —que deve ser tratado como irreversível— que interrompe a passagem dos espermatozoides pelos canais que transportam essas células dos testículos em direção à uretra.

“A cirurgia não altera diretamente a ereção, a libido ou a ejaculação, mas impede que os espermatozoides sejam liberados no sêmen”, afirma.

A busca por alternativas não cirúrgicas inclui também métodos hormonais. Um deles é o gel experimental NES/T, que combina segesterona, um progestagênio, e testosterona.

Aplicado diariamente sobre a pele, o gel busca suprimir os hormônios que estimulam a produção de espermatozoides, enquanto mantém os níveis de testosterona necessários para preservar funções do organismo.

“O objetivo é atingir uma concentração espermática suficientemente baixa para proporcionar uma contracepção eficaz, mas não é aprovado para uso e também ainda não tem uma segurança importante como método contraceptivo”, diz Neto.

Os pesquisadores da Weill Cornell Medicine afirmam que não observaram efeitos adversos nos estudos com animais realizados até agora.

Uma das preocupações levantadas é que a enzima sAC também está presente em tecidos além dos testículos, inclusive nos olhos. Será necessário avaliar se o bloqueio da enzima pode provocar efeitos indesejados em outras partes do organismo.

Outra questão é verificar se o medicamento mantém os espermatozoides incapazes de fecundar um óvulo durante todo o período necessário para evitar a gravidez. Isso porque os espermatozoides podem sobreviver por até cinco dias no trato reprodutivo feminino, enquanto o efeito previsto da pílula dura de seis a oito horas.

Desde que a pílula anticoncepcional para mulheres foi aprovada na década de 1960, pesquisadores no mundo inteiro têm interesse em desenvolver seu equivalente masculino.

As mulheres têm diferentes métodos contraceptivos, como a pílula anticoncepcional, o DIU (dispositivo intrauterino), o diafragma, o adesivo hormonal, a camisinha feminina e a laqueadura. Para os homens, porém, os métodos se limitam à vasectomia e à camisinha.

Especialistas ouvidos pela Folha já afirmaram em reportagem anterior que os motivos por trás de métodos contraceptivos masculinos não terem avançado giram em torno da resistência cultural e da falta de interesse da indústria farmacêutica.

Segundo Elis Nogueira, ginecologista e obstetra pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e do Hospital Israelita Albert Einstein, é socialmente aceitável que a responsabilidade da contracepção recaia somente sobre as mulheres.

“Historicamente, por sempre vivermos numa sociedade machista, recai um peso desigual sobre as mulheres, que é a responsabilidade de prevenir a gravidez, além de enfrentar os desconfortos e efeitos colaterais dos contraceptivos femininos disponíveis”, disse.

Para Marcelo Horta Furtado, supervisor da Disciplina de Reprodução do Departamento de Andrologia da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), não há “motivação” por parte da indústria farmacêutica.

“A indústria acha que não vai ter um mercado grande devido à resistência masculina de usar a medicação, uma vez que o homem não acha que é a responsabilidade dele”, afirmou.

About Author

Compartilhar

Deixe um comentário...

cropped-AMBIPAR-BANNER
previous arrow
next arrow